Revelações

Essa é uma carta encontrada junto ao corpo de um detento que se enforcou em sua cela:

“Eu lhes afirmo: a história que vou lhes contar é real e aconteceu exatamente conforme vou descrever na sequência. Para lhes dar garantia de que o que digo realmente aconteceu vou registrar aqui meu nome – sim, o verdadeiro e não um pseudônimo.

Sou Heitor Blanc, e vivi essa triste história há cerca de quinze anos atrás. Eu era, naquela época, casado com uma mulher linda, e não digo isto apenas por eu ser apaixonado por ela, mas por ser a verdade. Lembro-me bem como ela me instigava com aqueles olhos que oscilavam entre o azul céu e o cinza pálido, eles eram quase sobrenaturais.

É importante ressaltar novamente que eu amava a Carmem, é a única mulher que eu amei desde que nasci até o momento que vos relato a minha história. Tínhamos uma vida tranquila na pacata cidade de Sacramento, eu tinha trinta e cinco anos naquele tempo e minha mulher era seis anos incompletos mais jovem. Não tínhamos filhos, acredito que algum de nós era estéril, mas como isso nunca foi um problema conseguimos levar uma vida feliz sozinhos. Eu dava flores acompanhadas de cartões para ela e não permitia que ela cozinhasse aos domingos para que pudesse descansar.

Agora que já disse o suficiente para saberem que eu a amava, como todo bom homem deve fazer com a esposa, eu posso lhes contar a parte horrível da nossa história.

Eram meados de mil novecentos e oitenta e dois, e eu tive uma visão horrível durante o sono: Meu vizinho Manoel morreria vítima de uma asfixia acidental na cozinha da casa dele e no momento de sua morte um demônio se apossaria do corpo dele. Eu era muito religioso e sabia desde que nasci que eu tinha uma missão com o Pai.

No dia da morte dele eu teria um sinal e deveria evitar a possessão do demônio. Eu não sabia como faria isso, mas orei a Deus todos os dias para que me iluminasse a mente. Um dia quando olhei para o céu vi que algumas nuvens formaram uma cruz no céu. Era meu sinal, eu sabia.

Corri para a casa do Sr. Manoel e percebi que ele tossia muito. Eu comecei a entrar em desespero, fiquei bisbilhotando-o pela janela até ver seus olhos ficarem vermelhos e sua tosse se intensificar. Foi aí que me ocorreu o pensamento: O demônio precisava de um corpo vivo, mesmo que semi-morto para habitar, logo se eu expulsasse todo resquício de vida do corpo ele se tornaria uma casca morta e não teria serventia ao sete peles.

Tremi e derramei lágrimas, mas missão era missão e eu não podia negar um chamado divino. Rezei em silêncio um pai nosso, invadi a cozinha da casa dele e o ataquei pelas costas. Envolvi seu pescoço com meus braços e esganei até que não restasse mais vida no corpo dele. Ele balbuciava frases como “Saia demônio” o que me fez ter certeza de que eu fazia o correto. Chorei muito, matar alguém é muito difícil, mas cumpri minha missão com Deus pai.

Nunca contei isso para ninguém, vieram alguns policiais da cidade grande e interrogaram todos e ninguém sabia o motivo para alguém matar o Sr. Manoel. Com o tempo até a viúva superou a morte do amado e ninguém mais falou daquilo.

Passaram-se anos sem que Deus chamasse por mim, senti falta de servi-lo, porém estava feliz com minha esposa e por isso nunca pedi para ser usado novamente.

Tudo recomeçou depois de uma missa de sábado a noite que participamos juntos, fomos para casa sorridentes e brincalhões, fizemos amor e fomos dormir. Essa deve ter sido uma das noites mais longas que já vivi. Tive sonhos com os sussurros e eles me mostravam que o próprio Diabo invadiu minha casa algumas noites atrás e fornicou com minha linda Carmem e colocou no ventre dela o anticristo.

Vi além: esse anticristo faria uma enorme chacina e deixaria vários herdeiros, todos descendentes do Diabo. Eu não poderia permitir que aquela criança crescesse na minha esposa. Pobre Carmem.

A princípio que me recusei a seguir o chamado, como eu poderia fazer algo de mal para minha linda mulher? Passou-se um mês do meu sonho e minha Carmem veio me dizer emocionada “Minhas preces foram aceitas, estou grávida Heitor, teremos um bebê”. Ela me abraçou mais forte que o normal, já devia de ser a força das trevas crescendo nela. Lágrimas molharam meu rosto enquanto a abraçava e clamei no meu interior por uma solução para aquele problema.

Tive outros sonhos que me mostravam o quão horrível seria o parto dela e o como a sua pobre alma pereceria dando a vida ao anticristo. Num ou outro sonho a voz dizia “Mate-a e a poupe de tanto sofrimento, salve o mundo”.

Carmem sempre foi muito doce, preocupada e atenciosa comigo, com o passar de mais algumas semanas ela começou a ficar estressada e agressiva, chorava por tudo e gritava constantemente. Seus olhos assumiram um tom amarelado e eu comecei a ter medo dela e daquilo que crescia ali dentro da sua barriga.

Fui até a igreja e pedi o padre um pouco de água benta, que ele me arrumou sem grandes dificuldades. No domingo, fui eu para a cozinha e resolvi fazer o prato predileto do meu amor: Feijoada. Usei nela toda a água benta que peguei e fui servi-la na cama.

Ela me agradeceu com um beijo intenso e comeu tudo com muita pressa. Acreditei que a refeição abençoada seria capaz de expulsar o mal de dentro dela. Grande erro meu pensar isso, ela vomitou tudo logo em seguida, e na semana que se seguiu continuou a vomitar, como se quisesse retirar qualquer resquício de água benta de dentro de si.

Comecei a me preparar emocionalmente, já tinha tomado todas as medidas cabíveis e tudo que eu via era aquela barriga crescendo mais e mais dia após dia.

É difícil continuar a história a partir daqui, mas como me comprometi em contar-lhes a verdade não vou parar. Levantei numa sexta-feira a noite e fui até a cozinha com cuidado para não acordá-la. Escolhi a melhor faca que pude e voltei para o quarto. Corria um frio na minha espinha e lá fora começava uma chuva leve.

Os relâmpagos cruzavam os céus me encorajando e passo a passo me aproximei dela. Peguei uma fronha que meti-lhe na boca, ela acordou desesperada nesse momento, mas o eu já havia laçado o lençol na cama e prendia suas mãos com um nó rapidamente nele. Ela me encarava com os olhos bem vermelhos com uma mistura de ira e medo. Sentei em cima de suas pernas para que não me chutasse e com uma faca cortei-lhe a barriga.

Dividi aquela barriga profana em dois hemisférios e com as mãos arranquei de dentro dela o pequeno monstro. Ele tinha pele viscosa e roxa, a cabeça maior que o corpo, não tinha olhos e tinha um forte cheiro – devia de ser enxofre, o perfume dos demônios.

O que senti naquela hora não pode ser adequadamente descrito aqui, perdi o amor da minha vida, mas livrei o mundo das desgraças de satã. No fim eu era um vilão e um herói.

Mas eu não consigo mais viver com isso, preso nessa cela sonhando com demônios e com os olhos de Carmem todos os dias, por isso resolvi dar fim a minha própria vida. Eu te amo Carmem e espero encontrá-la no paraíso.”

– O Corvo


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