A Rua dos Cataventos – Mário Quintana

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

#Quintane-se
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Sentimento Interno

O Jumento Santo e a Cidade que se Acabou Antes de Começar

Uma divertidíssimo pastiche dirigido por Leo D. e William Paiva. Confiram.

fonte: http://portacurtas.org.br/

Conte comigo

Um #Haikai para começar bem o dia.

Essa linda pintura feita por Guido Reni em 1636 é uma representação (clássica) da batalha ocorrida quando Lúcifer foi expulso do céu. (Segundo a cultura católica)
Essa obra está na Igreja Santa Maria della Concezione, Roma.

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St Michael Archangel – Guido Reni

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De Amor E De Horror

Simplesmente linda essa interpretação feita por Silvio Matos para o poema do nosso querido Carlos Drummond de Andrade.

“José, e agora?” – Carlos Drummond de Andrade

E Agora José?

A Floresta do Alquimista

“Crianças, ficção é a verdade dentro da mentira, e a verdade desta ficção é bastante simples: a magia existe.” – Stephen King

Era fim do verão, mas as folhas já começavam a abandonar as árvores. O chão, por isso, se tornava macio e barulhento.

A garota que não passava dos 10 anos de idade, caminhava lentamente e sozinha com o choro preso à garganta.

Seus pensamentos oscilavam entre a morte dos pais e o medo da escuridão da floresta pela qual caminhava. Cada passo parecia o último, ou o primeiro. Não distinguia mais quanto tempo passara desde que chegou à Floresta do Alquimista.

Dizia a lenda que poucos foram corajosos o suficiente para se arriscar a caminhos tão pouco amistosos, e menos ainda foram aqueles que voltaram.

Era fácil sentir as dezenas de olhares dos seres que ali viviam, difícil mesmo era suportar o peso desses olhos. As vezes pareciam curiosos, outros famintos, mas muitos eram vazios, sem qualquer sentimento.

Fazia frio, a umidade era muito alta por entre as árvores, o ar estava incrivelmente parado na parte mais baixa mas o som mais abundante era o de vento chacoalhando a copa árvores.

Era assustador olhar para cima, parecia haver um outro universo por lá. Vez ou outra via-se um pequeno trecho do céu por entre as folhas o que deu para constatar o intenso brilho da lua que era a única luz que momento ou outro permeava o escudo verde-amarelado formado pela vegetação.

A garotinha, olhando novamente para frente, lamentou não ter tido uma irmã, seus pais já tinham uma idade avançada quando ela nasceu e não resistiram a uma febre que os atacou ainda no início do verão.

Parecia trovejar fora da Floresta do Alquimista, e foi num desses lampejos de luz que a garota conseguiu perceber um pedaço velho e sujo de pano cair da copa das árvores. Por um instante, a menina – já muito assustada – imaginou ouvir risos de alguma outra criança, parecia próximo mas ao mesmo tempo distante. Como se estivesse ao seu lado, e ao mesmo tempo em outro mundo.

Correu para onde a voz a guiou, o ar estava pesado para respirar, frio e úmido. Só então percebeu que tremia e que suava pela espinha.

Seu corpo diminuto e infantil sentia as dores do desgaste de estar caminhando por tanto tempo sem rumo. Foi quando um som inusitado surgiu em meio as trevas. Difícil de crer, mas uma melodia era calmamente tocada em um flauta.

Um som tão poderoso que toda a floresta respondeu, suas árvores chacoalharam, despertando todos os seres ali presentes, aves, répteis, insetos e mamíferos, alvoraçados pela magia contida na melodia.

A poucos metros da garota surgiu um homem com vestes pesadas, o rosto semicoberto por um capuz que permitia que ficasse visível apenas sua esbelta flauta de madeira e algumas partes de sua barba.

Seus passos não faziam nenhuma espécie de barulho ao tocar o chão, e lentamente ele caminhava em direção da garota.

Ela não sentiu medo. Ela sentiu paz. E a cada passo que ele dava, todas as criaturas que inicialmente se alvoraçaram começavam a retornar ao seu repouso. Até que tudo que restou foi o som de sua flauta.

Lágrimas percorriam o rosto da menina, e com as costas das mão o Alquimista secou seu pequeno rosto.

O homem tinha um odor forte de ervas e cinzas e até mesmo sua respiração parecia produzir música. Ele então se ajoelhou de frente a garota.

Com um leve sopro ele removeu toda a sujeira que estava impregnada nas vestes, no cabelo e na pele da garota. Com isso ela se sentia ainda mais leve.

Com um estalar de dedos, ele fez flores crescerem ao seu redor e o céu clarear. Os primeiros raios de Sol começaram a permear a floresta. Incrivelmente já era dia. Ou talvez fosse simplesmente magia.

A garota então sussurrou para o velho “eu gostaria de ter uma irmã, e se não fosse pedir muito gostaria de ter meus pais de volta”. O senhor, apenas levantou seu capuz, revelando seus olhos acinzentados e seu rosto cheio de linhas de expressão. Sem dizer uma só palavra, ele começou a pegar algumas folhas do chão e com um sopro as fez em chamas em meio a suas mãos, a fumaça preencheu todo ar ao seu redor.

Plantas floresceram ao redor, pássaros começaram a cantar e uma grande quantidade de luz solar aqueceu o interior da mata. Na copa das árvores, vozes chamavam pela garotinha que sentiu seu corpo muito pesado para se erguer.

Foi quando o Velho estendeu-lhe a mão e com um sorriso capaz de acabar com todo sentimento ruim a ajudou a levantar.

Ela estava leve como o ar, sentia-se misturada ao mundo, sentia uma calma e paz sem igual e pôde perceber que não era mais a mesma, ela era tudo e era o nada. Era o inicio e era o fim. Era terra, água, fogo e ar.

E olhando para trás ela se espantou, ao se ver caída em meio as folhas. Desfalecida. Sozinha.

Assustada deu um grito “Quem é você?” e foi então que viu que sua alma se erguia por cima das arvores e em meio as nuvens ela viu a silhueta dos pais e de uma outra garota, um pouco maior que ela. E como um sussurro quase inaudível, sentiu dentro de si a resposta para sua pergunta “Eu sou Elohim”.

E só restou paz!

– O Corvo

 

As últimas horas

Você viveu o que todo mundo vive, Bernie. Uma vida. Nem mais, nem menos. O tempo de uma vida. – Morte (Neil Gaiman, em Sandman)

Provavelmente lá fora o sol já havia apontado no horizonte, aqui dentro apenas uma vaga diferença de temperatura anunciava o início do dia.
Sentando-me na cama dura olhei para o teto como se pudesse ver o céu daqui, fiz algo que talvez pudesse ser chamado de oração, mas que não passava de uma comoção por todo o mal que eu já tivera feito.
Vesti a minha camisa e aliviei a bexiga no urinol no canto da cela. Já podia ouvir no fim do corredor os passos de um dos carcereiros.
Cela 14, não me esqueceria do número, foi ali o meu confinamento por alguns meses. Preso por um crime que não foi meu. Me acusavam de assassinar um criança, filha de um influente vaqueiro da região.
Bom, digamos que eu não seja lá um santo, eu talvez tenha roubado uma ou outra fazenda antes, já ganhei a vida traficando cocaína e já matei uma meia dúzia de homens, todos eles mais podres que eu. Mas porra, uma criança? Uma garotinha que não tinha mais que 4 anos de idade. Era incabível… Até para mim.
Mas ali estava eu, nesse momento com lágrimas nos olhos, encarando a bandeja com uma lâmina e o creme de barbear. Nunca me cresceu barba na cara e já estando com meus 46 anos completos já tinha dado inicio ao meu processo de calvície.
Ainda assim não poderia restar um pelo sequer. E com o deslizar da lâmina eu sentia os últimos e poucos fios do meu cabelo se misturarem à espuma de barbear. A água gelada que umedecia a tolha que limpava minha cabeça refrescava o calor que eu sentia naquele momento.
O suor escorria para dentro dos olhos e misturava-se às lagrimas que eu insistia em segurar. O nervosismo fazia minha perna pular freneticamente. Até que a sessão de depilação terminou.

***

Algemado e acompanhado por dois guardas, seguia eu calmamente, cantarolando mentalmente alguma canção que eu provavelmente ouvia na infância. Um leve tremor nas mãos denunciava o meu medo que crescia a cada passo. Mas eu sorria.
A sala, não muito grande tinha uma quantidade de pessoas que poderia ser contada com os dedos das duas mãos, isso se eu fosse capaz de contar algo naquele momento.
Sentei-me na cadeira, não disse uma palavra sequer, um momento eterno se passou enquanto alguém lia minha sentença, pelo crime que não cometi. A cada palavra lida meu coração batia um pouco mais rápido, imaginei que a mulher sentada na primeira cadeira pudesse ouvir meus batimentos, pois a cada segundo ela parecia chorar mais, pelo que eu mal me lembrava aquela era a mãe da garota que havia sido encontrada morta dentro de uma das minhas propriedades.
O choro da mulher, porém, não parecia um choro de luto, era algo desesperado demais, quase um remorso, medo ou talvez arrependimento. Não compreendi, mas não consegui desviar meus olhos daqueles olhos azuis agora tingidos pelo vermelho causado pelas lágrimas.
A água gelada que escorria da esponja fez eu me lembrar de onde estava, minha cadeira da morte, minha vida estava literalmente por um fio. Tentei – sem êxito – relaxar. Mas eu só sentia dor, não uma dor física, mas uma dor no espírito.
Imaginei que era tarde demais para me arrepender dos meus pecados mais ainda assim pedi perdão a Deus – mesmo tendo, por vários anos da minha vida, negado sua existência. Era o fim e tudo mudava.
Água fria, componentes metálicos ligados, e meu capuz a postos. Questionaram-me se havia algo que eu gostaria de dizer antes de por a mordaça. Tentei dizer de forma natural, porém minha voz saiu esganiçada, quase um cochicho “Digam ao meu filho, quando ele crescer, que eu o amei… e que eu era inocente.” Só podia me lembrar do meu filho naquele momento.
O silêncio tomou o lugar e no último segundo antes de colocarem em mim o capuz que pouparia os espectadores da cena do meu rosto contorcendo eu pude perceber a mulher em prantos balbuciar em tom quase inaudível “desculpe-me”.
Raiva, tristeza, medo e quase um alivio se misturaram em minha mente. A maldita mulher sabia que eu era inocente. Meu filho jamais se lembraria do meu rosto. A morte já estava parada logo atrás de mim. Mas eu era inocente.
A escuridão cobriu minhas vistas junto do capuz. O chefe bradou que ligassem a máquina. Um arrepio percorreu meu corpo. Depois de um breve estalo, e um grito em resposta parecia estar tudo pronto.
Com a frase “Deus o tenha. Pode começar!” o guarda autorizou que a morte me pegasse. Ela não foi muito carinhosa de início, milhares de volts percorreram meu corpo causando uma dor indescritível. O rosto diminuto do meu menino estava na minha frente, quase no alcance do toque, porém apenas dentro da minha cabeça.
“De Novo”. E novamente uma enorme corrente me percorreu. Nesse momento a incapacitante dor inicial já havia passado. Como se eu não mais habitasse aquele corpo. As mãos da morte já podiam tocar meu corpo, ou seria minha alma?
Talvez eu tenha chorado. Talvez gritado. Mas nada importava mais. Eu estava livre novamente. E absolvido. Sem medo e sem dor. Livre de toda crueldade do mundo. Porém morto.

– O Corvo

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Fonte na própria imagem

Despertar

 

Era início de uma noite qualquer de agosto, estava frio o suficiente para acender a lareira, e foi feito.

A brasa ardente fazia as sombras dançarem pelas paredes, o chá que estava por sobre a mesa preenchia o ar com seu aroma forte.

Ainda era cedo da noite, não mais que 22hrs, mas o sono veio leve e tímido até que dominasse por completo o seu anfitrião de meia idade.

Seu rosto que era – normalmente – retorcido pelas preocupações cotidianas agora estava sereno, mostrando apenas as rugas que escondiam velhas histórias de sua vida. A mão direita que pendia sobre o braço da poltrona sustentava uma xícara já vazia.

Um vento repentino percorreu toda a sala, agitando as páginas amareladas de um livro há muito esquecido sobre a cômoda que ficava ao lado da lareira.

Numa fração de segundos depois o vento alcançou a porta entreaberta, que se fechou num estrondo oco que reverberou pelo cômodo.

O susto de ser repentinamente despertado fez com que a mão – já calejada – do homem soltasse a xícara que se estilhaçou no chão fazendo um som estridente.

Levantou-se de um pulo, com o coração acelerado.

Ao entender o que havia acontecido, o senhor caminhou lentamente para a janela, afim de fechá-la.

Vislumbrando então seu jardim da entrada, há muito descuidado, cheio de plantas já mortas e com a grama por cortar.

Era, de todo modo, um belo jardim, em seu canto esquerdo havia uma estátua – já desgastada – de Athena, apesar de está-la vendo pelas costas sabia que faltava nela a orelha esquerda e o nariz.

De súbito percebeu uma silhueta ao lado da deusa grega, parecia um homem, não muito alto, de cabelos longos ensopados com água.

Haviam muitos meses que não chovia naquela região, desviou então os olhos do homem para verificar o céu que, como esperado, não possuía nenhuma nuvem sequer o que apenas realçava o brilho da lua crescente.

No Segundo Depois, voltou seu olhos para o ponto onde estava o visitante para constatar que ele não estava mais lá.

Quase que no mesmo instante alguém bateu pausadamente por três vezes à sua porta.

– Quem é? – perguntou com sua voz grave.

Nenhuma resposta veio.

– Diz-me teu nome – Insistiu.

E novamente nada foi dito.

Por baixo da porta não havia sombra alguma, então resolveu abri-la para verificar quem lhe perturbava.

Assustou-se ao vislumbrar o semblante daquele jovem homem, exatamente à sua frente. E sem dizer palavra alguma ele forçou um pouco para que abrisse mais a porta. Mesmo apavorado, o nosso anfitrião permitiu que o garoto entrasse.

Ele não cheirava bem, estava um pouco suado e com as botas sujas de estrume. Com um leve e sutil movimento levou rapidamente a mão às costas.

Foi então que pronunciou as primeiras palavras:

– Poderia me servir um pouco do seu chá? E biscoitos se possível…

Assentido o anfitrião se virou e como um relâmpago o invasor saltou sobre ele derrubando-o no chão.

***

O baque surdo de sua cabeça na tábua corrida do chão coincidiu com o som da porta batendo devido uma lufada de vento.

O susto de ser repentinamente despertado fez com que a mão – já calejada – do homem soltasse a xícara que se estilhaçou no chão fazendo um som estridente.

Assustado, se levantou. Coração disparado. Caminhou lentamente rumo a janela para fechá-la.

“Foi apenas um sonho!” repetia para si.

Belo como no sonho que acabara de despertar estava seu jardim, silencioso e um tanto mórbido. Um arrepio lhe percorreu a espinha. Seu medo se realizara:

Ao lado da velha estátua grega pairava a sombra de um homem de longos cabelos, como um atleta profissional aquele que poderia ser seu assassino correu em direção a entrada de sua casa. E com três longas batidas à porta desafiou o anfitrião a abrir a encarar seu destino.

Sentia gotas de suor escorrer por sua nuca como se fossem os gélidos dedos da morte, estava apavorado.

Novamente vieram três batidas, ele não iria perguntar quem era, já sabia o que aconteceria. Foi então que decidiu pegar sua arma.

O revólver calibre 38 era estranhamente pesado, nunca antes havia disparado aquela coisa, mal sabia se funcionaria. Mas era isso, ou a morte certa.

Fez uma prece. Levou o dedo ao gatilho. Levou a mão à fechadura. Secou o suor da testa com a mão que segurava a arma…

Então, o mais rápido que pôde, ele abriu a porta com uma mão e já foi logo disparando no primeiro “alvo” que viu.

Não havia como errar, foi a queima roupa. Seu visitante caiu pesadamente no chão do hall de entrada e com um olhar que misturava susto e dor deixou escorrer uma lágrima e desfaleceu.

O jovem havia sido acetado no peito, uma enorme possa de sangue se formava no chão. Tocando-o no pescoço o Homem de meia idade pôde sentir o momento que o coração dele diminuiu a força dos batimentos até que parasse por completo.

Revistou-lhe a procura da faca, mas não havia nada com ele. Apenas seus documentos. Tinha 17 anos.

Depois de arrastar o corpo para dentro, o Anfitrião resolveu buscar o nome do garoto na internet. Encontrou relatos sem nenhuma dificuldade, o garoto havia sido sequestrado na semana anterior, estava desaparecido, era filho de um comerciante, dono de uma loja de iguarias ao que parecia.

O choque foi tremendo, ele acabara de cometer um assassinato e tudo por causa de um sonho estranho. Era apenas um garoto… e inocente.

– O Corvo
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